ÁREA DO ASSOCIADO

Para ser professor é indispensável ter conhecimentos pedagógicos e de técnicas didáticas

celmo
OLHO: Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, onde também defendeu tese de doutorado em Clínica Médica, o médico e professor de 83 anos, Celmo Celeno Porto tem título de especialista em Clínica Médica pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM) e de Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Fez ainda Curso de Medicina Tropical na Universidade de São Paulo (USP) e de Pedagogia Médica ministrado pela Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM). Atualmente é Professor Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG),Professor Orientador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da UFG, Membro Titular da Academia Goiana de Medicina e Membro Honorário da Academia Nacional de Medicina. Acompanhe a entrevista onde ele discorre sobre publicações científicas e formação dos docentes em Goiás.

1. Como foram os primórdios da sua educação?

Minha educação formal teve inicio com um Mestre-Escola (Prof. Constâncio Lopez) em um povoado no interior de Minas Gerais. O detalhe é que este Mestre-Escola era um Professor da Universidade de Madrid que teve de fugir da Espanha durante o governo do General Franco, que perseguiu e assassinou os intelectuais que faziam oposição ao regime ditatorial, dentre eles o grande poeta Garcia Lorca. Era uma escola diferente, talvez como as da Espanha em meados do século passado. O Prof. Lopez lia o Don Quixote em espanhol para seus alunos. Frequentei a escola de “Ler, Escrever e Contar” dos 6 aos 10 anos. Por certo, lá estão minhas raízes culturais…

2. Quais os livros que o senhor publicou?

Exame Clínico (8ª edição), Semiologia Médica (7ª edição), Doenças do Coração, Prevenção e Tratamento (2ª edição), Interação Medicamentosa (1ª edição), Clínica Médica na Prática Diária (1ª edição), Cartas aos Estudantes de Medicina, Dr. Calil Porto, o menino e a borboleta, todos pela Editora Guanabara-Koogan (Rio de Janeiro). Todos os livros estão disponíveis também no formato eletrônico (e-book). Alguns destes livros foram traduzidos para a língua espanhola e são adotados em muitas escolas da América Latina.

3. Com mais de 60 dedicados á ciência, quais são as principais dificuldades que o senhor vê na produção científica no Brasil?

A primeira dificuldade é o desconhecimento do Método Cientifico, o qual não faz parte dos currículos dos cursos de Medicina. Grande obstáculo é a precariedade de nossas instituições públicas de ensino, onde se concentram a maior parte dos pesquisadores, assim como a escassez de recursos financeiros para pesquisa.

Cumpre salientar que, atualmente, uma das principais fontes de recursos passaram a ser a indústria farmacêutica e de equipamentos médicos. Como não seria de estranhar, a maioria destas pesquisas atende em primeiro lugar o interesse comercial dos financiadores.

Basta ver que a prioridade absoluta é dirigida para medicamentos de alto custo ou os que serão usados a vida toda pelos pacientes. Sempre é citado o exemplo do pouco interesse pelo desenvolvimento de antibióticos, exatamente porque tem possibilidade de curar infecções, sendo, portanto, usados por pouco tempo.

O melhor é desenvolver medicamentos para controlar a pressão arterial, as dislipidemias e outras condições crônicas, fazendo destes pacientes fiéis consumidores destes “produtos” por tempo indeterminado.

Não se trata de demonizar estes setores da economia. Grandes progressos ocorreram nos últimos anos, tanto para diagnóstico como para tratamento. Mas, o que não se pode admitir é a subserviência dos pesquisadores ou relações espúrias entre eles e a indústria.

4. Existem dificuldades para se manter um revista científica? Caso sim, quais?

Para compreender a situação atual das revistas cientificas é necessário conhecer as várias fases pelas quais vêm passando. Inicialmente eram criadas e mantidas pelas instituições de pesquisa e de ensino e pelas associações médicas.

Em outra fase, os fabricantes de medicamentos, de aparelhos de diagnóstico e de outros produtos passaram a apoiá-las para utilizar suas páginas como veiculo de propaganda de seus produtos, muitas vezes interferindo no critério de aceitação dos artigos científicos, como foi denunciado por editores de importantes periódicos.

A distribuição gratuita destas publicações fazia parte do marketing, muitas vezes entregues aos médicos, pessoalmente pelos representantes da indústria, juntamente com as amostras dos medicamentos.

Estamos entrando em uma nova fase que é a incorporação de livros e periódicos, no que pode se denominar de “bionegócio”, um dos maiores negócios do mundo, que movimentas trilhões de dólares e inclui, além da indústria farmacêutica, de máquinas para diagnóstico, diferentes produtos utilizados no tratamento.

Estão sendo incluídos, ainda, as fábricas de suplementos alimentares, os hospitais e clínicas, os laboratórios de patologia clínica, as farmácias, os congressos, até as academias de exercícios, ou seja, tudo que estiver relacionado com saúde e doença.

Todo dia se divulgam aquisições e fusões de empresas, criando verdadeiros gigantes multinacionais. Um recente exemplo desta fase é o crescente domínio da Elsevier no mercado de publicações cientificas, principalmente as de grande impacto.

Cobram-se dos pesquisadores altos valores para publicar e paga-se também muitos dólares para ler os artigos. Esboça-se em algumas partes do mundo uma reação a esta clara mercantilização da produção cientifica, mas a meu ver é uma reação romântica que pouco ou nada poderá alterar a voraz engrenagem do bionegócio. Até Faculdades de Medicina e institutos de pesquisa tornaram-se alvos do bionegócio.

Com relação à sobrevivência das revistas cientificas duas outras questões estão surgindo: a necessidade de indexá-las nas bases de dados, o que não é fácil, e a busca para alcançar elevados fatores de impacto, sem o que não são lidas. Apesar de tudo, graças ao apoio de algumas associações profissionais e o esforço de abnegados editores, muitas revistas cientificas ainda estão sobrevivendo.

5. Em sua vida acadêmica, qual foi o legado que deixou?
Somente a história pode avaliar o legado de cada um de nós. Se houver!

6. O que o senhor pensa sobre os diversos estudos que apontam que a produção científica no Brasil cresce, mas a qualidade cai?

Não conheço estudos que comparem a qualidade das publicações cientificas. A cienciometria ainda está restrita aos estudos de quantidade, sendo um dos principais indicadores para isto o fator de impacto. Costumo indicar para meus alunos da pós-graduação que procurem ler análises sistemáticas e metanálises, a melhor maneira de ficar livre do “lixo cientifico”. Mas, a inclusão da pesquisa da professora Celina Turchi, ex-aluna e ex-professora da UFG, entre as 10 mais importantes pesquisadoras de 2016 é um exemplo de que pesquisas de alta qualidade, realizadas em instituições públicas e sem finalidade comercial, ainda existem.

7. Que mudanças o senhor acha que o Ministério da Educação e Cultura (MEC) poderia promover para mudar esse cenário?

O MEC pouco influi na produção cientifica. Sua atuação quase sempre fica restrita a aspectos burocráticos do ensino. As agências de fomento, tais como FINEP, FAPESP, CNPq e outras similares, tem papel importante na produção cientifica. Aliás, o Ministério da Saúde poderia contribuir de maneira vigorosa.
Bastava ter coragem e interesse em organizar o sistema de saúde do Brasil, começando pela Atenção Básica, criando condições de trabalho adequadas para todos os profissionais que dela participam. A carreira de estado seria fundamental, retirando a saúde da influência nefasta da classe política!

O modelo poderia ser inspirado no sistema judiciário que não é perfeito, mas está demonstrando que é possível ir à raiz dos problemas, apesar de todos os obstáculos que lhe são antepostos para não funcionar. Pesquisas clínicas de alto nível podem ser subprodutos de assistência médica, desde que esta seja de excelência.

8. Quais os problemas que o senhor acredita que os estudantes enxergam para se interessarem com a carreira acadêmica?

Os estudantes iniciam o curso de Medicina sem nada saber do sistema de saúde…e grande parte ao formar continua nada sabendo. Os currículos são baseados nos conhecimentos e desejos dos especialistas que assumem o papel de professores que tentam interpretar as diretrizes construídas por “técnicos” quase sempre dissociados da realidade.
Felizmente, tenho percebido que cresce entre os estudantes de medicina e de outras profissões da saúde novos interesses, expressos pelas Ligas Acadêmicas e por outras iniciativas que poderão provocar mudanças radicais no ensino.

9. Como o senhor avalia a formação docente em Goiás?

A formação dos docentes em Goiás não é diferente do que existe em outros Estados. Indo direto ao ponto: não há formação docente para ser professor! Os cursos de pós-graduação, não estão cumprindo este papel. Sem dúvida, os professores são ótimos médicos, alguns excelentes pesquisadores, mas na área educacional são “leigos”. A meu ver, para ser professor é indispensável ter conhecimentos pedagógicos e de técnicas didáticas.

10. O que representa para o senhor ser membro da Academia Nacional de Medicina e da Academia Goiana de Medicina?

Ser membro da Academia Goiana de Medicina e da Academia Nacional de Medicina são as maiores honrarias que recebi em minha vida de médico e de professor.